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Palavras Desenhadas

Em cada bloco de mármore vejo uma estátua; vejo-a tão claramente como se estivesse na minha frente, moldada e perfeita na pose e no efeito. Tenho apenas de desbastar as paredes brutas que aprisionam a adorável aparição para revelá-la a outros olhos como os meus já a vêem.

Florbela Espanca

Escultura: Pietàs de Miguel Ângelo

A Pietà de S. Pedro do Vaticano é a única escultura assinada por Miguel Ângelo. Na fita cruzada sobre o peito da Virgem Maria gravou as palavras Michael Angelus Bonarotus Florent Faciebat, ou seja, «Miguel Angelo Buonarotus de Florença fez.» O que segundo Vasari demonstra “ a satisfação do artista com o resultado alcançado”. Na realidade trata-se de uma obra requintada, com perfeito acabamento e polimento de mármore. Maria contempla em seus braços o corpo sem vida e intencionalmente reduzido de Jesus. Michelangelo quebra as regras de proporção para dar maior expressividade à sua obra. O que surpreende neste conjunto harmonioso é a beleza calma da Virgem juvenil, em cujos joelhos repousa Cristo em posição de criança adormecida. Nela, o rosto angelical de Maria é a representação do amor materno, da conformação e aceitação da morte. A Virgem não olha para Cristo, com a cabeça inclinada e o gesto da mão esquerda aberta aceita a vontade divina.

foto: javi_indy no Freepik

Mais tarde com a Pietà Rondanini, (passados mais de 50 anos entre as duas obras), o autor deixa-nos uma obra inacabada, dramaticamente mutilada. Na Pietà de Milão Michelangelo coloca toda a carga dramática da perda de um filho, na posição dos corpos com as figuras de Maria e do filho concebidas verticalmente, dando a impressão de um retorno ao ventre ou de um abraço da morte. Talvez a solidão da velhice corresponda à solidão destas únicas imagens verticais: a mãe de pé a segurar o filho morto que parece sair dela. As duas figuras são apenas esboçadas mas toda a força da arte expressionista já está presente.

Michelangelo achava que, entre todas as artes, a mais próxima de Deus era a escultura. Deus havia criado a vida a partir do barro, e o escultor libertava a beleza da pedra. Segundo ele, a sua técnica consistia em ‘libertar a figura do mármore que a aprisiona’. Conseguiu.

Obrigado Miguel Ângelo

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