
Palavras Desenhadas
Refugia-te na arte, diz-me Alguém
E eleva-te num voo espiritual
Michelangelo Buonarrotti
Nos braços da cruz…
É com a oração do Pai Nosso que Bruce Springsteen termina o seu Concerto autobiográfico. Pode parecer estranho a um primeiro olhar e para quem não estiver familiarizado com a música deste autor.
A música de Bruce, The Boss, como é conhecido no mundo do Rock & Roll, tem um ritmo muito próprio. Tal como todos os músicos, tem a sua forma pessoal de interpretar a música. Para Springsteen, não é só a música, mas também a vida, porque é aqui que este cantautor encontra o ritmo para as suas composições.
O que faz único um músico é o ritmo que encontra no seu íntimo e que lhe possibilita interpretar, de uma forma original uma peça musical, que é executada milhentas vezes por um sem número de músicos.

Foto: Disney
The Boss procurou nas suas vivências os temas para os seus trabalhos poéticos e musicais. A mais difícil de todas, e talvez a que mais o ajudou a encontrar a sua própria voz, como nos descreve neste concerto, diz respeito à relação com o seu pai. Podemos dizer que o Concerto termina com o Pai Nosso, porque finalmente Bruce Springsteen se encontrou consigo, porque se encontrou com o seu pai.
O Concerto é um género de confissão pública, melhor, de reconciliação. Bruce reconhece que muitas vezes se sentiu um mentiroso, porque muito do que cantava encontrava-se muito distante do que verdadeiramente tinha vivido. Um bom exemplo é a música Born to run. Bruce abandona a sua cidade, para fugir ao pai e à vida tão curta que vislumbrava diante de si. Sonhava com muito mais e para isso tinha que correr atrás do sucesso, dos grandes produtores e discográficas. The Boss confessa que precisou de regressar a casa e, se antes cantava que a casa do seu pai estava vazia, tal como podemos escutar em My father house, agora encontra-se cheia. O regresso possibilitou o encontro com todos os seus fantasmas e, com o maior deles, o pai. Não só com os seus fantasmas, mas também reconciliar-se com o passado e descobrir-se a si próprio. Os ritmos e os ritos da sua infância, que o fizeram e que lhe deram o seu ritmo mais profundo, como a oração do Pai Nosso, rezada todos os dias no colégio Católico que frequentava.
O regresso foi uma reconciliação consigo. Esta reconciliação passou a ser procurada todos os dias, estando um pouco com cada um daqueles que já partiram, ao fim do dia. A reconciliação consigo implicou regresso à sua cidade natal mas, principalmente, possibilitou a reconciliação com o seu pai, com o Pai. E assim termina o concerto.